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RAIO X
" Primitive Reason - América 1999 - O Caminho das Estrelas "
RaioX - Como é que têm corrido as vendas de Tips & Shortcuts? Mark Cain - Por vários factores, e não só pelo facto das pessoas já conhecerem a banda, como o de ter sido lançado no Natal, ter uma melhor distribuição, etc. Parece-me que vendemos tanto nas duas primeiras semanas com este álbum como tínhamos vendido no primeiro ano do primeiro disco. Também não são grandes números quando comparados com os dos Excesso. Mas a nossa editora ficou muito feliz com os resultados alcançados até ao momento.
RX - E não acham que as pessoas estavam bastante ansiosas de alguma coisa nova da vossa parte? MC - Foi muito falado. Aliás, foi muito esperado. Passaram três anos. Brian Jackson - Quase três anos. MC - Talvez por isso, houve muita expectativa. Entretanto realizámos muitos concertos. Muita gente queria uma coisa nova e nós também.
RX - Vocês têm estado um pouco afastados dos festivais. Actuaram uma vez em Paredes de Coura. MC - Este ano não. BJ - Actuámos dois anos em Paredes de Coura. Um ano sem o patrocínio da Imperial, porque antes era independente. MC - Agora o Festival está mais produto. Antigamente era mais familiar. Realmente, nos dois concertos que tocámos, sentimos uma coisa muito especial. O local, o ambiente, toda a atitude.. No primeiro ano houve muitos problemas. A organização estava... BJ - ...muita mal, mesmo. MC - Teve muito que aprender. BJ - Foi fixe porque acho que foi um concerto grátis. MC - Sim, e naquele local é fantástico.
RX - É um anfiteatro natural belíssimo. Lembro-me de há dois anos ter assistido a um espantoso concerto de Mão Morta. MC - Os Mão Morta é que nos criaram problemas. (gargalhada) Como sempre, porque eles têm horários. Já tocámos tanta vez com os Mão Morta. É sempre a mesma coisa. Eles têm um contrato que diz que têm de tocar determinados temas até uma certa hora. Por isso eles obrigam a produção a pôr a banda de apoio a tocar depois dos Mão Morta, que é uma coisa completamente ridícula.
RX - As pessoas que só estavam no local para ver Mão Morta acabam por bazar. MC - Exacto. Não faz sentido que bandas desconhecidas actuem depois de um espectáculo daqueles, já conhecido e com fãs. E eles fazem isso sempre. Com os atrasos nas produções, chegamos frequentemente àquele ponto - não sei se o Adolfo tem de praticar advocacia de manhã, muito cedo ou não - que está no contrato e muitas vezes eles tentam exigir. Isso foi um dos problemas no primeiro Paredes de Coura, porque ninguém sabia bem qual era a ordem das bandas. E isso é uma complicação para o som, para tudo. BJ - Principalmente para as pessoas que apanharam uma grande 'besana' antes de verem a banda que queriam ver. (risos)
RX - O novo álbum tem uma capa muito atractiva e um título bastante sugestivo. MC - Tudo vem de amigos. BJ - Menos a capa. MC - A capa é uma fotografia comprada que foi posteriormente tratada em computador. Todo o trabalho artístico do livrinho... MC - Sai uma ideia. "Olha toca uma coisa com isso." Tanto uma música pode sair em pouco tempo como pode levar dois anos. Se quiseres ouvir a música que saiu no Tejo Beat, vais descobrir que é Fables em Tips & Shortcuts, trabalhada de forma diferente. Eu tenho em casa a música original gravada com o Mário Barreiros. Uma música, a nosso ver, muito boa. O Mário Caldato não gostou, por questões pessoais. Porque tinha lá mudanças à Primitive Reason; mas umas cenas pesadas que tu, pá, achavas fantástico; uma progressão que todo o mundo na banda gostou. Ele não gostou. Então desfizemos a música, tirámos algumas ideias e fizemos aquela. Depois de termos feito a música original, algumas ideias foram usadas na música Fables, outras ideias foram ainda para outra música. Nesse sentido é um processo pouco formal, pouco normal; como as outras bandas. Não é bem ABAB CBBB e muito dinheiro. Não é bem aquela forma comercial. Embora este álbum seja um pouco mais estruturado devido à intervenção do produtor. Ele achou a nossa anarquia um pouco extrema e tentou estruturar.
RX - Mas no caso do Mário C e do Tejo Beat, ele produziu o último disco dos Planet Hemp. BJ - Acho que ele viu tanta diversidade de mudanças que ficou de verdade confuso com isso e, também, não podia sentir isto. Ele perguntou-nos "o que é que vocês gostam?". "Pá, nós gostamos de dub." "Eu também curto bué dub." "OK, vamos fazer uma cena dub."
RX - Se fosse um CD duplo e houvesse a possibilidade de fazer duas músicas em vez de uma, podiam ter incluído versões diferentes da mesma música. MC - Não é aquela ideia da remistura. É mesmo refazer. A música mais pesada, El Otro, que é cantada em espanhol, penúltimo tema do álbum; por mim prefiro a versão original àquilo que saiu no próprio disco. O que saiu no disco tem um grande som, tem um grande 'power', mas a nível de estrutura e outras coisas, é muito quadrado, é mais linear e normalmente só fazemos isso mais no gozo, para curtir. Mesmo assim, há aquele drum 'n bass no meio.. BJ - Isso foi mesmo para fazermos uma coisa diferente. MC - O que o Marsten tentou fazer foi tornar as músicas mais lineares ao nível de timming. Ele disse-nos que por vários factores a banda não estava em condições para ser tão experimental como nós queríamos, ao nível de "agora tocas a 120 bpm, depois tocas a 155 bpm e voltas a 90", ou coisa assim. Ele diz "vocês não deveriam ainda experimentar isso. Têm que tocar muito melhor." Isto foi a ideia dele. Acho que são opiniões pessoais e, por ele ser o produtor, tivemos que alinhar e fazer certos compromissos. Ele aceita outras ideias nossas e nós temos que aceitar algumas dele. Aceitamos também porque respeitamos a opinião dele. É um bom profissional. BJ - Mas é verdade, porque se fores ouvir o primeiro disco, em termos de tempo... tá, infelizmente... MC - Na altura o Jorge não sabia tocar com 'click', e não houve tempo. Posso dizer-te que no primeiro álbum a pré-produção foi duas visitas do produtor a minha casa, onde a gente ensaiava. Desta vez foi praticamente dois meses a viver na mesma casa, a fazer a pré-produção, que era basicamente estruturar as músicas e fazer o máximo de trabalho ao nível da secção rítmica, para que quando chegássemos ao estúdio pudéssemos despachar aquela base da música, o mais rapidamente possível, para ele poder realmente experimentar sons, guitarras... BJ - Demorou seis dias e foi o que levou mais tempo. MC - No primeiro álbum acho que levámos onze dias só para fazer a bateria. Desta vez foram só três dias e meio. Seis dias para as guitarras, foi o inverso. Mas o som das guitarras está fantástico. Ele usou um amplificador meu. (risos)
RX - Vocês estão de partida para os Estados Unidos. O que esperam encontrar por lá? MC - A pobreza. (risos) BJ - Vamos tentar alargar os nossos horizontes. MC - Julgando pela reacção das pessoas de cá à nossa música, supomos que haja público para a nossa banda lá. Excepto que, enquanto cá nós somos uma banda, não digo única, mas diferente, sobretudo porque na altura em que saímos não havia em Portugal uma outra banda deste género, lá não é o caso, e entretanto já se passaram vários anos. Por isso, não vai ser fácil, mas a gente espera poder trabalhar de tal forma que a gente consiga viver daquilo. A intenção é sermos profissionais da música. Para isso, como qualquer músico sabe, estares a trabalhar doze horas num lado, teres uma vida pessoal, viajares pelo país todo a tocar e seres criativo.. Para fazer a música bem, uma pessoa precisa de fazer aquilo como qualquer outro artista. Ter espaço mental e físico.. BJ - E tempo.. MC - ... que é dinheiro.
RX - Vocês provavelmente sentem que se continuassem aqui o vosso universo não evoluiria muito. BJ - Podemos dizer que envolvia um espaço muito mais pequeno. MC - Nós podíamos ficar cá e usar Portugal como base, não só para Portugal mas para outros países. Só que experimentámos isso, e não resulta. Por vários factores. Não é só por culpa da banda, porque nós tentámos uma série de coisas, mas temos recursos muito limitados. RX - Terá também a ver com o mercado ou com a editora.. MC - Principalmente com os apoios. Porque nós nem a Espanha fomos. BJ - Estamos apenas a três horas de viagem. MC - A Espanha nunca levou ninguém a Espanha, praticamente. Nós sabemos que em Espanha há muita gente que curte a banda. É ridículo. Agora surgiu esta oportunidade, uma cunha, um contacto.. isso é que é preciso e tem de ser aproveitado. É isso que estamos a fazer. BJ - E há entusiasmo lá. MC - Sim, é um nível interessante de mercado e, por isso, temos uma certa esperança que pegue, isto é, se fores lá e deres concertos. A qualidade das bandas é bastante alta e o mercado paga muito mal, porque existem montes e bandas. Cá o mercado é o contrário: há poucas bandas, e no geral os concertos pagam muito melhor do que lá ora. Em Inglaterra, lembro-me que um concerto dava para pagares as tuas cervejas no fim da noite e as cordas da guitarra. Estamos num canto da Europa e do Mundo que as situações ainda se estão a desenvolver a outro passo. BJ - Aqui eles pagam bem os concertos porque somos uma banda relativamente conhecida. Quando começámos tínhamos de levar os amplificadores no combóio. Uma vez chegados aos Estados Unidos, vamos ter de fazer o mesmo e começar do zero. MC - Não vamos ter técnicos porque os concertos não vão pagar nada. BJ - Vai ser uma grande experiência. MC - Mas se tudo correr bem, então corre bem. (risos) A gente não sabe o que isto implica a nível das nossas vidas; é só ir lá e fazer. Mas a ideia é encontrar um espaço no qual possamos viver juntos de uma forma económica, o que é difícil. Este é o primeiro passo porque só assim é que podemos recomeçar os ensaios para dar bons espectáculos e criar novas músicas. BJ - Deve ser uma experiência interessante tocar para pessoas que não conhecem nenhuma coisa da banda e ver a reacção delas.
RX - Vocês vão para que cidade? MC - Nova Iorque. BJ - Dizem que é o sítio mais difícil para lançar uma banda. MC - Mesmo em Lisboa, vamos ver o microcosmos de Nova Iorque, que é a capital do país, as pessoas estão mais acostumadas à cultura, a ver bandas.. Toda a atitude e apreciação é relativa. Ora, tu vais a qualquer parte da província e não é bem a mesma coisa. A reacção é bem mais entusiasta, vai todo o mundo, porque a escolha não é assim tão grande. Então Nova Iorque, é pá, tem a escolha do que há de melhor no mundo, todos os dias, em qualquer parte, 24 horas de entretenimento. Por isso a atitude é diferente. Pessoal não curto muito cidades, prefiro viajar para outros sítios, mas Nova Iorque é uma cidade que tem uma energia própria que é fantástica. BJ - Eu tive lá cinco dias e foi cinco minutos. Acordar buéda cedo.. MC - .. e deitar tarde e mesmo assim. RX - Como é sentiram o meio das prozines? Apoiam algumas das bandas em início de carreira? BJ - Há algumas prozines que conhecem o nosso primeiro disco e há algumas pessoas que falam sobre o grupo na internet.
MC - Ultimamente tenho andado à procura, mas não tenho encontrado nada. Sei que lá há coisas bastante recentes. Houve umas coisas bastante negativas no princípio porque a UL fez um EP junto com outras bandas da editora e, na nossa opinião escolheu mal as faixas, e a crítica reflectiu essa escolha e isso teve implicações. Sei que mais recentemente há coisas mais positivas quanto ao segundo álbum. Mas até agora ainda não encontrei. Há tanta banda, mesmo, e que toca bem. O nível é muito alto. As pessoas da banda que estão lá, dizem que mesmo a banda Zé da Esquina, tem uma energia, uma apresentação e uma técnica a tocar que é surpreendente. É muito acima daquilo que se vê de momento aqui em Portugal. A quantidade de pessoas, a quantidade de dinheiro, o mercado que é, o número de lojas de música.. é outro mundo, não tem nada a ver. Portugal passou por uma repressão cultural e não só, durante a maior parte deste século. Só nos últimos tempos é que realmente está a começar. Não se deve lamentar, é um facto. Aconteceu e para algumas pessoas está a mudar rapidamente, para outras lentamente. Mas está a mudar. É todo um processo que leva tempo. Cá há muita imitação das influências que vêm de fora. Há muita agressão da cultura própria de Portugal. Este processo está a tomar lugar em todos os países do mundo. Tomou lugar nos Estados Unidos, na sua altura, absorver a música de outras culturas, fazendo a fusão e passar para a frente. Isto está constantemente a acontecer, não deixando de ser natural que aconteça também por cá. Em Portugal há tanto rap e hip hop como metal progressivo, como tudo.. mas está num estado de desenvolvimento. Ainda ontem à noite falei com uma pessoa sobre isto. Ele pode ser um grande vocalista, mas onde é que arranja uma grande banda com os mesmos objectivos, com personalidade, com disponibilidade, com material.. que possa ensaiar ao mesmo tempo. Fazer uma banda é complicado.
RX - Exige uma enorme força de vontade. BJ - Tens de querer mesmo muito.
RX - O meio musical português e tudo o que está indirecta ou directamente relacionado com ele é infimamente pequeno. MC - Já houve revistas de música que falharam por falta de apoio e de público. BJ - E também não existem sítios para tocar ao vivo. MC - Há cada vez mais, mas ainda não dá. Tenho amigos músicos no Alentejo. Uma banda que tem uma pessoa em Cuba, uma pessoa em Beja, uma pessoa em Évora e uma pessoa em Lisboa. Como é que esta banda ensaia? Com muita dificuldade. Porque encontrar pessoas compatíveis a estes níveis todos não funciona da mesma forma que uma empresa. Depende da força de vontade individual. Nos Estados Unidos há mais possibilidades, dada a densidade da população, o dinheiro.. as probabilidades são maiores.
RX - Se fossem convidados para participar em algum festival de verão, em Portugal, aceitavam? MC - Sim, estamos interessados. Claro. A ideia é mesmo voltar a Portugal. Mas temos de estar preparados e não deve suceder a curto prazo. Temos de lá estar primeiro e objectivo é concentrarmo-nos e darmos concertos lá. Actuar nas faculdades e conseguir divulgação nas suas rádios.
RX - É uma coisa que faz falta em Portugal e que só existe em Braga e em Coimbra. MC - E também no ISCTE.
RX - Acham que 1998 foi um ano globalmente positivo em termos de surgimento de novas bandas e edições discográficas? MC - Positivo, mas devido a meia dúzia de bandas. Porque no geral o pimba continua, as 'boy' e 'girl bands' estão num auge que se percebe, mas que também se lamenta, por quem não gosta, por quem não tenha treze anos. É difícil haver uma banda com originalidade que não seja tida pura e simplesmente como produto comercial, devido à falta de mercado. Isso é sempre o problema aqui. Porque todas as grandes editoras querem um produtor que lhes apresente venda.
RX - A velha máxima: "e que tal fazerem uma cena tipo Delfins"? MC - É isso. Querem uma coisa segura para conseguir vendas. Depois têm umas bandas em que estão dispostos a perder dinheiro, ou não, se der. Mas se não der daqui a dois anos já está fora e têm novas bandas. O ciclo é esse. A mentalidade é esta. Porque o mercado realmente não dá mais. Não vou comentar o sucesso dos Silence 4 porque acho que não é assim tão original. O que fazem é giro, é bem feito.. é uma questão de gosto, também. Mas acho que Belle Chase Hotel e The Gift fazem música bem mais interessante. BJ - Astonishing Urbana Fall é uma banda portuguesa que eu acho formidável. MC - Ultimamente não tenho ouvido falar nada deles. BJ - Investia dinheiro na compra de alguma coisa deles ou para ir ver concertos deles na boa. MC - Naquele primeiro ano em que corremos o país, foi a primeira banda que eu fiquei completamente desligado do mundo a vê-los, e era só o soundcheck. Finalmente uma banda diferente! BJ - E o baterista toca muito bem. (risos) MC - Mas é aquele estilo mais industrial, urbano e tal. E são de Barcelos, indo totalmente contra aquilo que disse hoje, mas acontece.
RX - E com uma forte componente visual. MC - Exacto. Fantástico. Este tipo de banda faz muita falta. Para ouvir os olhos e os ouvidos e a mentalidade dos ouvintes. Para que estes, por sua vez, vão para casa criar uma coisa diferente e nova. Quando vejo um bom concerto ico estimulado. Quero ir para casa e tocar. Se vejo uma banda que é igual a todas as outras, vou ao próximo bar e bebo mais copos. Faz falta mais originalidade. Há bons músicos, mas o mercado é muito virado pela imitação. Como, aliás, se vê na televisão. A SIC puxa muito pelas massas.
RX - Já foram ao Miguel Ângelo Ao Vivo? MC - Sim, fomos. Tivemos no quinto programa. Foi giro.
RX - Pelo menos tenta combater o habitual playback. MC - Foi por isso que fomos. Estamos fartos de ser convidados para tocar no Júlio Isidro, aqui e ali. "É playback? "É." Então a gente não quer. BJ - Fizemos um playback, mas mesmo a gozar com tudo. MC - E ninguém da parte da produção e da editora gostou. "Não, vocês não podem fazer isso, têm de levar isso a sério." O quê, levar playback a sério não. Aquilo é uma mentira total. E a maior parte das pessoas, que não são músicos, não percebe.
RX - Acham que o vosso vídeo tem qualidade para o levarem na bagagem e para o mostrarem na MTV lá nos EUA? MC - Provavelmente não. BJ - Acho que na verdade o problema é a qualidade do filme. MC - É e não é. O que se vê na MTV é uma questão de gostos. Podemos conseguir entrar pela porta do cavalo e conseguir uma passagem num horário menos nobre. Acho que a produção fez um bom trabalho com o dinheiro que tinha. Optámos por uma produção de baixa qualidade assumida. Não vamos tentar concorrer com o Puff Daddy, porque não vale pena. Fica ainda mais ridículo tentar levar aquilo a sério, porque não é possível.
RX - Esses vídeos são, normalmente, pequenos filmes com orçamentos astronómicos. MC - Nós também fizemos um pequeno filme. (gargalhada) Três minutos da vida de uma pessoa. É tipo 'Monty Python meets Lua de Mel Lua de Fel meets Low Budget', percebes? Foi tudo feito num dia. Saiu uma coisa acima da média ara aquele tipo de orçamento. Algumas pessoas viram e riram, e a ideia é essa. Mas também foi feito à pressa. Tudo feito à pressa. Até a mistura do disco foi feita em três dias. Para alguém que sabe como isso funciona, três dias para onze músicas, é ridículo. No primeiro dia, o Marsten fez uma música e meia. No dia a seguir fez mais duas músicas e a restante metade. Em dois dias fez quatro. No último dia fez sete. Foram 25 horas seguidas a trabalhar e tinha uma banda logo a seguir, para começar. É claro que ele não fez, foi para a cama recuperar, porque era impossível começar outra banda. Isto não são condições para se trabalhar. Tivemos de contribuir com a aior parte dos nossos royalties para completarmos o álbum.
BJ - Eram 21 dias, mas precisámos de mais três, quatro dias. MC - Então isso pagámos nós, porque a editora não queria pagar e a única forma de acabar era nós pagarmos. É ridículo porque nós não vamos ganhar dinheiro nenhum.. Só sei que se houvesse mais dinheiro, era poucos mais ias e qualidade seria sempre melhor. Já que outras bandas não têm sequer dinheiro para ir para um estúdio, está todo o mundo a lutar para apresentar maquetas ou trabalhos.. A percentagem que a gente ganha com isso não paga nada. Nem paga os instrumentos. Não paga o investimento financeiro. Se isto fosse um exercício financeiro a parte de alguém, era um fracasso. Logo, onde uma banda ganha aqui é nos concertos. Lá fora não é bem o caso. s pessoas fazem tournees, onde perdem dinheiro, para vender o álbum, onde ganham. Cá é o contrário.
RX - Num ano praticamente sem concertos, como foi 1998, como é que se conseguem safar? Vocês têm outras profissões? MC - Sim, temos de ter uma vida paralela. BJ - Eu moro com a minha mãe e digo-te já que se ela não estivesse cá, não sei o que me aconteceria. Mesmo durante o tempo de concertos e royalties não dava papel suficiente para poder alugar um apartamento, não dava para ir ao supermercado fazer as minhas compras, não dá. MC - Eu sou tradutor e ganho mais nas traduções do que na música. Para uma banda alternativa, a vida cá em Portugal é extremamente complicada. Nunca vamos ter um público daqueles enorme, tipo Marco Paulo que dá um peido e vende milhões. Aqui há uns tempos ele cobrava cinco mil contos por um concerto e pagava quarenta contos a cada músico, por espectáculo. Junto com as outras coisas, líquido, ele deve ganhar quatro mil contos por noite. Ele levou uma carreira toda para chegar a este ponto, mas há uma grande discrepância entre isto e outras bandas, não só a começar. Há bandas que estão juntas há anos e anos a lutar para sobreviver profissionalmente. É difícil.
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