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Rádio Pirata - Year: 1999 (Portuguese) Print E-mail
Thursday, 11 May 2006

by John Doe

Numa tarde ensolarada, falei com os Primitive Reason (bom, com alguns deles...Mark Cain, o saxofonista,
Mikas, o guitarrista, e Brian Jackson, o vocalista) sobre o novo album, sobre a ida para os Estados Unidos,
sobre muita coisa. O cenário : uma sala de reuniões da União Lisboa IV, com vista para o mar, num dia
ensolarado. A conversa não tardou a começar:

Rádio Pirata - Quais foram para vocês as mudanças mais significativas neste novo album, em relação ao
som do Alternative Prison?
Mark Cain - Ao som? É um som mais trabalhado...
Mikas - Mais apertado, e mais relaxado...
MC - Tight! Tight! (Risos)
M - Bom, peraí...Este album, em termos de composição, não teve nada a ver com o outro.
Tivemos o trabalho de pré-produção, no qual o Marsten Bailey teve um grande input, na estruturação das
músicas e etc, na procura de sons e isso tudo.

RP - Como é que fazem a composição das músicas? É um tipo que decide "agora tocas isto assim e assim"?
M - Não...Basicamente, a gente toca, tás a ver? Quando surge uma ideia...O nosso grande problema sempre
foi juntar as coisas, isso era como távamos no primeiro album, que foi tudo 'pimba pimba, e esta agora,
e depois outra', já estávamos um bocado a cagar. Neste album há uma maior fluência estética, basicamente.
Uma música se começar em reggae em princípio não vai descarrilar pra uma trashalhada assim sem mais nem menos.
MC - Embora isso aconteça...
M - As mudanças são mais subtis, há menos contrastes.

RP - As reacções do público nos concertos ao vivo ajudaram a definir o vosso som?
M - Não sei se teve muito a ver com isso. Antes pelo contrário. Sabes que as músicas deste disco ao vivo não
são tão fortes, a maior parte.
MC - Tocámos algumas das músicas ao vivo, e algumas ficaram mais ou menos iguais, outras também mudaram,
isso é um trabalho à parte da reacção do público. Uma das músicas do album, que tem sido muito elogiada,
é o Man and The Mask, e ao vivo era das músicas menos fortes, mas principalmente porque o público não
conhecia as novas músicas, por isso a reacção é relativa, não influencia muito.

RP - Ao vivo o público também reage mais quando vocês começam mesmo a 'abrir', e tal...
MC - Pois.
RP - Têm alguma canção favorita, do album?
M - Friend or Foe, pra mim.
MC - Eu tenho umas 3 ou 4.
M - Não, a minha favorita nem é, eu gosto de todas.
Brian Jackson - Em termos de som interessante, é verdade. O Friend or Foe tá muito mais...
MC - É diferente, ya.
BJ - Usámos uma guitarra ligada a um sintetizador. Era uma guitarra que o Andy Summers dos Police utilizava.
M - É uma guitarra que tem uma cena que quase parece do Spectrum, é pré-midi. Fim dos anos 70, 80.
BJ - O som que sai dali é muito interessante.

RP - A inclusão do Fables neste album, depois daquilo com o Caldato no Tejo Beat, pode ser vista como uma espécie de afirmação?

MC - Não, foi uma mutação, só...
M - É a mesma música, se fores a ver.
MC - Eu tenho uma gravação do Fables, dos ensaios, depois tenho uma versão já trabalhada no estúdio, tanto
pelo Marsten como pelo Mário Barreiros, e depois tenho a versão do Mário Caldato e a que acabou no disco.
É uma mutação constante. Obviamente, aquilo com o Caldato foi radical porque ele cortou toda a onda mais pesada, e houve uma construção rápida no estúdio de uma nova música, baseada em duas ideias que foram aproveitadas.

RP - Muito mais linear.
MC - Exacto. Era o que ele pretendia. Perguntámos o que ele achava da música, e ele disse que "na realidade isso não é o meu estilo, mas o meu estilo será esse", e experimentámos, e como havia pouco tempo e já tínhamos passado meio dia a fazer a nossa versão antes de ele dizer isso, então tivemos pouco tempo para arranjar aquilo que está agora no Tejo Beat. E chamámos percussionistas, enfim, outras pessoas foram aparecendo.
Quem pudesse aparecer logo, entrava no disco.

RP - Durante as gravações do Tejo Beat, não surgiram oportunidades de colaborações com outras bandas?
BJ - Não, cada banda tinha um ou dois dias. Era muito apertado. Nem vimos ninguém. Ele tava cá durante 29 dias,
tinha de ouvir todas as bandas, fazer toda a produção delas. Ele nos dias que cá esteve, nem teve tempo de ir
conhecer a Expo.
MC - Ele até foi, nos primeiros dias foi. (risos) No nosso primeiro dia de gravações ele foi à Expo, portanto
tivemos de readaptar o esquema, mas bom...foi tudo muito assim, banda entrava, banda saía, muito 'bam bam bam'.

RP - Como é que vocês reagem ao sucesso comercial que o Tips & Shortcuts está a ter em relação ao Alternative Prison?
BJ - Eu acho que tem muito a ver com os concertos que nós demos nos últimos 3 anos, a fazer promoção para o
Alternative Prison. Agora tou a falar com muita gente que diz que gostou muito muito muito dos concertos, mas
que quando ouviu o Alternative achou que não valia a pena comprá-lo. Tou a ouvir muitas pessoas a dizer isso agora, que antes não diziam nada disso. Falam do som do novo disco, muito mais produzido, muito mais trabalhado, e dizem que neste sim, gastam dinheiro na boa.
MC - Há também outro factor, é que houve um grande problema de distribuição com o Alternative. Neste disco já
resolveram isso. É que pronto, no primeiro disco muita gente estava naquela "Ei, eu quero comprar o album, não
está nas lojas", e pronto, uma pessoa tem x dinheiro, e se aquele disco não está lá, compra outro, e a realidade
é essa. Desta vez está a funcionar de uma forma diferente, a União não faz a distribuição, é outra empresa já mais xperiente, e acho que isso tá a ter influência.
BJ - Também há pessoas que no primeiro não nos conheciam tão bem. E agora depois de três anos de concertos com erteza há pessoas que foram aos concertos sem terem o disco, e ouviram novas canções e esperaram por este album.
MC - Nós é que queremos saber o que as pessoas acham. Sobretudo antes da saída do disco era pior, porque não podíamos saber a reacção do público, e as pessoas perguntavam "Como é o disco? Como é o disco?", e nós "Bem...É preciso ouvi-lo,. não posso dizer isso assim". (Risos) O que nos interessa é a reacção das pessoas. Se vende ou não vende é uma coisa, se as pessoas gostam ou não gostam é outra.

RP - Não acham um bocado irónico que o disco comece a vender agora que se vão embora?
BJ - Um bocadinho. (Risos) É uma grande ironia que em 10 ou 14 dias que o album está à venda, já tenha vendido
mais que o Alternative em 3 anos.

RP - Já vendeu mais que o Alternative?
MC - Sim, aliás acho que no fim da primeira semana já tinha vendido mais.

RP - Em relação aos Estados Unidos, já têm planos para concertos e lançamentos novos?
MC - O que ouvimos ontem é que em princípio não vai haver concertos até Março. Portanto em vez de irmos já em
Janeiro, como tinha pensado até à meia-noite de ontem, a minha vida mudou radicalmente, e agora vamos em Fevereiro,  não tenho onde viver, que é fixe (Risos). Caraças, saí do apartamento, mas tudo bem, a gente trata disso como qualquer outra coisa e continua. A ideia é ir mais tarde, porque realmente agora há pouco movimento. Em qualquer lado, Janeiro, pronto...Há menos concertos, há mais trabalho de estúdio, preparação para a época mais forte, portanto oncertos em princípio em Março, mas ainda não sabemos. O agenciamento que temos deve tratar disso.

RP - Sendo os elementos da banda de várias nacionalidades, há gente que diz que são referidos como banda portuguesa penas por serem editados em Portugal. Agora que vão para fora, querem manter o estatuto de banda portuguesa?
BJ - Nós somos uma banda de Portugal, mas não sei se dá para dizer que somos uma banda portuguesa, tás a ver? Somos uma banda que foi criada e raiada, como os Jane's Addiction dizem, em Portugal.
MC - A nossa ideia é voltar cá, temos um público, e também temos as nossas vidas. Não vamos embora e esquecer Portugal, nem pensar.
BJ - Nunca.
MC - Depende daquilo que acontecer lá, também, do andamento das coisas. Mas a ideia por alto é de voltar durante ma época estipulada, porque é estúpido voltar para dar só um concerto, ao nosso nível...Ou a qualquer nível, não sei (Risos). A ideia é voltar, mas é preciso ir lá primeiro para saber o que vai acontecer.

RP - Mas a ideia é voltar só para matar saudades ou é mesmo para darem concertos?
MC - Para concertos, sim. Tipo, arranjar uma agência cá que organizasse um mês em colaboração com a agência lá dos Estados Unidos. "Epá, este mês nós não tocamos nos Estados Unidos, tocamos em Portugal". Isto era o ideal.

RP - Correr o país todo, e tal.
MC - Fazer aquilo que houvesse para fazer. E a ideia será essa. Se conseguíssemos isso era bom.
RP - Com o vosso crescimento a partir de 1992, foram surgindo outras bandas com som do mesmo género, como é o caso dos Three & a Quarter, ou de grande parte das bandas na final do Termómetro Unplugged deste ano.
Acham que isso vos traz mais responsabilidade para inovarem?

BJ - Não sei. Eu acho que na altura em que nós saímos, não havia muita gente que tivesse tomates para investir
numa banda como nós. Quando estivemos a passar a demo, e coisas assim, não havia nenhuma editora multinacional aqui em Portugal que investisse noutra banda como nós, porque já tinham feito isso com os Braindead e foi um flop. E isso é porque não havia nenhuma multinacional que acreditasse em nós.
MC - Uma banda alternativa, a cantar em inglês, não era bem vista nesse meio.
BJ - Mas acho que as editoras acabaram por ganhar coragem e passaram a dar apoio a bandas como nós e a bandas mais alternativas que o normal. Não sei se isso nos traz a responsabilidade de fazermos melhor.
MC - Até certo ponto pode-se dizer "Ah, esta banda tem influências daquela banda", sabemos que já tivemos
influência directa nalgumas bandas, algumas pessoas já nos disseram isso, mas acho que vão aparecendo bandas de todo o tipo. Obviamente, há uma grande base de bandas jovens que começam com as influências mais fortes marcadas.

RP - Já vos aconteceu essas bandas mais inexperientes pedirem-vos opiniões sobre a sua música?
MC - Bom, ultimamente não temos andado em concertos, por isso não temos ouvido ninguém...
M - Isso das opiniões, sabes que os músicos são um bocado naquela, sejam maus ou bons, o que eles querem é
que interessa.

RP - Que acham do panorama da música moderna portuguesa?
M - Tá bom, não tá?
BJ - Acho que as editoras se andam a empenhar mais. A diferença do panorama de há cinco anos para o actual é brutal. Tens agora muito mais bandas, muito mais por onde escolher. As editoras ganharam coragem.

 
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