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Thursday, 11 May 2006

O regresso às raizes

Entrevista aos Primitive Reason: «Continuamos a ser uma banda portuguesa»

Filipe Rodrigues da Silva


Em 1996 os Primitive Reason eram a maior esperança do cenário musical português.
Os temas de «Alternative Prison» tornaram-se em hinos e tinham presença assegurada no airplay,
fruto da explosiva mistura de rock, ska, dub e hardcore. A passagem pelo primeiro Vilar de Mouros
da era moderna consagrou-os a nível interno. Mas os Primitive tinham planos mais arrojados.
Com «Tips & Shortcuts» ainda fresco nas lojas e a bater recordes de vendas (em duas semanas
vendeu mais do que a totalidade do seu antecessor), a banda partiu para os Estados Unidos e
fez de Nova Iorque o seu quartel-general. Tocaram com êxito nas muitas salas do circuito alternativo
norte-americano e transformaram-se numa das estrelas do Napster. Entretanto, a formação sofreu
muitas alterações e chegou-se a falar no fim da banda. Este ano, «Some Of Us» rompeu o silêncio
em terras lusitanas. Segundo Guillermo de Liera (GL) e Jorge Felizardo (JF), os Primitive estão
de volta, de boa saúde e dispostos a não decepcionar os fãs.


Em 1996 tiveram um êxito talvez não esperado. Depois editaram «Tips & Shortcuts», o qual foi
também um grande êxito. De forma inesperada, de repente, desapareceram. Porquê?
GL: Se soubéssemos como as coisas iriam correr teríamos feito de maneira diferente. Mas já nos tínhamos
comprometido e fomos para os Estados Unidos antes desse sucesso inesperado. Foi uma pena, de certa forma.
JF: Acho que as pessoas sentiram essencialmente falta dos concertos. De ouvirem falar de nós.
Foi uma sequência de acontecimentos, a começar na relação com a editora e a acabar na vontade de
querermos experimentar coisas novas. O processo arrastou-se ao longo de um ano, logo a seguir a
«Alternative Prison», e pensámos muito no que iríamos fazer. Gravámos o segundo álbum, mas a decisão
de nos mudarmos para Nova Iorque já estava tomada, Não foi, por isso, repentina ou impulsiva.
Mas concordo que lamentamos não ter podido presenciar o que sucedeu a «Tips & Shortcuts».


Como correu a aventura americana?
JF: Correu muito bem. Tocámos em muitos sítios. Conhecemos muitos músicos e aprendemos imenso.
Tínhamos o objectivo de apresentar a nossa música ao mercado norte-americano e julgo que o conseguimos.
Estamos de volta a Portugal para desenvolver o nosso trabalho. Constitui mais uma etapa da banda.
Se regressarmos aos EUA será apenas pontualmente para efectuar concertos o gravar.
GL: Começou tudo a partir de Nova Iorque. Tocámos em todos os bares e clubes da cidade que havia
para tocar. Fizemos ainda uma digressão de duas semanas na Costa Leste e depois passámos quase dois
meses na estrada. Foi muito bom sentir que estávamos a ser bem recebidos pelo público e os media,
mesmo que as vendas de discos não tenham sido astronómicas. Quando há um primeiro disco é difícil
convencer. Mas tudo o que sucedeu compensou esse facto.


E agora o regresso a Portugal. O lançamento deste álbum não terá ocorrido na melhor altura...
JF: Há coisas que, enquanto banda, não controlámos totalmente. O facto de termos uma editora em
Portugal e outra nos EUA gera alguma confusão, mas julgo que tudo vai passar a correr da melhor
maneira. É certo que «Some Of Us» saiu primeiro nos EUA e demorou muitos meses até ser editado em
Portugal. A sua edição na parte final do Verão fez-nos perder os principais festivais e muitos concertos,
mas possuímos agora todas as condições para mostrar que a banda está viva, forte e pronta para tudo.
Somos uma banda portuguesa e queremos triunfar no nosso país.


Com tantas alterações na vossa formação o vosso som foi afectado?
GL: Julgo que não. Houve mutações, mas isso está na nossa natureza. Nós somos verdadeiros ao nosso estilo.
JF: As saídas de alguns elementos no primeiro ano em Nova Iorque alteraram um pouco as nossas
perspectivas. Ficámos apenas nós os dois. Tínhamos a ideias para um álbum, mas não sabíamos com quem,
nem como, nem quando. Estávamos no estrangeiro, com poucas pessoas e uma verba financeira reduzida.
Chegou a ser desesperante. Mas não desistimos. Tínhamos de fazer alguma coisa.


«Some Of Us» é o reflexo de quê?
JF: Como toda a música é um desabafo. Exprime o que passámos e do que sentíamos nessa altura.
Quem gravou este disco fomos nós os dois...


Daí a presença de tantos músicos convidados no álbum?
GL: Sim. Primeiro recrutámos algumas pessoas nos EUA para tocar connosco. À medida que o tempo foi
passando vimos, no entanto, que elas não se encaixavam no projecto. Acabámos depois por voltar às
raízes, recorrendo a amigos que já conhecíamos de Portugal, que estavam lá e que tínhamos conhecido
aqui no Verão. Gravou-se o álbum. Começámos a digressão e agora voltaram connosco para Portugal.
JF: A gravação do álbum foi complexa. Os artistas convidados fizeram coisas que serviram às músicas.
Não nos limitámos à banda e tentámos usufruir do máximo que pudemos das participações dos convidados.
Se precisarmos um dia mais tarde de algumas destas pessoas já sabemos que elas participaram connosco
e que tal resultou.


Concordam que cada álbum é um momento do tempo?
JF: Completamente. Reflecte as emoções, os pensamentos e a parte da vida que uma pessoa está a passar.
Não somos o tipo de banda que faz uma coisa porque está na moda ou que só irá fazer o que está na moda.
Mantemo-nos fiéis ao que fazemos desde o início. Por vezes, mais eléctricos. Noutras, mais eclécticos.
Mas sempre a pensar que cada tema possui um sentimento diferente, conforme o que sentimos no momento.


Não colocam de lado a ideia de poderem vir a experimentar áreas musicais que até agora ainda não abordaram?
GL: A experimentação faz parte de nós. Com o recurso, por exemplo, a elementos da música electrónica
podemos fazer sair outras coisas de dentro de nós. Neste momento já estamos a utilizar instrumentos
étnicos e percussões e alguns samplers. Não estamos presos a um tipo de som ou melodias. Somos uma banda
que funciona com uma caixa aberta.


Já estão a trabalhar num novo disco...
GL: É verdade. Acabámos de o escrever e agora estamos à espera da altura para o gravar. Esperamos que seja
lançado antes do próximo Verão. Queremos que o álbum triunfe não apenas em Portugal ou em alguns
circuitos dos EUA. O resto da Europoa é muito importante. Não estamos a pensar de forma cega no
êxito, mas a experiência destes anos nos EUA diz-nos que é preciso mostrar o nosso trabalho ao vivo
se queremos ser reconhecidos. Os Moonspell constituem um bom exemplo dessa atitude.
Uma atitude profissional que tenha o apoio das editoras.

02-11-2001

 
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