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O regresso às raizes
Entrevista aos Primitive Reason: «Continuamos a ser uma banda portuguesa»
Filipe Rodrigues da Silva
Em 1996 os Primitive Reason eram a maior esperança do cenário musical português. Os temas de «Alternative Prison» tornaram-se em hinos e tinham presença assegurada no airplay, fruto da explosiva mistura de rock, ska, dub e hardcore. A passagem pelo primeiro Vilar de Mouros da era moderna consagrou-os a nível interno. Mas os Primitive tinham planos mais arrojados. Com «Tips & Shortcuts» ainda fresco nas lojas e a bater recordes de vendas (em duas semanas vendeu mais do que a totalidade do seu antecessor), a banda partiu para os Estados Unidos e fez de Nova Iorque o seu quartel-general. Tocaram com êxito nas muitas salas do circuito alternativo norte-americano e transformaram-se numa das estrelas do Napster. Entretanto, a formação sofreu muitas alterações e chegou-se a falar no fim da banda. Este ano, «Some Of Us» rompeu o silêncio em terras lusitanas. Segundo Guillermo de Liera (GL) e Jorge Felizardo (JF), os Primitive estão de volta, de boa saúde e dispostos a não decepcionar os fãs.
Em 1996 tiveram um êxito talvez não esperado. Depois editaram «Tips & Shortcuts», o qual foi também um grande êxito. De forma inesperada, de repente, desapareceram. Porquê? GL: Se soubéssemos como as coisas iriam correr teríamos feito de maneira diferente. Mas já nos tínhamos comprometido e fomos para os Estados Unidos antes desse sucesso inesperado. Foi uma pena, de certa forma. JF: Acho que as pessoas sentiram essencialmente falta dos concertos. De ouvirem falar de nós. Foi uma sequência de acontecimentos, a começar na relação com a editora e a acabar na vontade de querermos experimentar coisas novas. O processo arrastou-se ao longo de um ano, logo a seguir a «Alternative Prison», e pensámos muito no que iríamos fazer. Gravámos o segundo álbum, mas a decisão de nos mudarmos para Nova Iorque já estava tomada, Não foi, por isso, repentina ou impulsiva. Mas concordo que lamentamos não ter podido presenciar o que sucedeu a «Tips & Shortcuts».
Como correu a aventura americana? JF: Correu muito bem. Tocámos em muitos sítios. Conhecemos muitos músicos e aprendemos imenso. Tínhamos o objectivo de apresentar a nossa música ao mercado norte-americano e julgo que o conseguimos. Estamos de volta a Portugal para desenvolver o nosso trabalho. Constitui mais uma etapa da banda. Se regressarmos aos EUA será apenas pontualmente para efectuar concertos o gravar. GL: Começou tudo a partir de Nova Iorque. Tocámos em todos os bares e clubes da cidade que havia para tocar. Fizemos ainda uma digressão de duas semanas na Costa Leste e depois passámos quase dois meses na estrada. Foi muito bom sentir que estávamos a ser bem recebidos pelo público e os media, mesmo que as vendas de discos não tenham sido astronómicas. Quando há um primeiro disco é difícil convencer. Mas tudo o que sucedeu compensou esse facto.
E agora o regresso a Portugal. O lançamento deste álbum não terá ocorrido na melhor altura... JF: Há coisas que, enquanto banda, não controlámos totalmente. O facto de termos uma editora em Portugal e outra nos EUA gera alguma confusão, mas julgo que tudo vai passar a correr da melhor maneira. É certo que «Some Of Us» saiu primeiro nos EUA e demorou muitos meses até ser editado em Portugal. A sua edição na parte final do Verão fez-nos perder os principais festivais e muitos concertos, mas possuímos agora todas as condições para mostrar que a banda está viva, forte e pronta para tudo. Somos uma banda portuguesa e queremos triunfar no nosso país.
Com tantas alterações na vossa formação o vosso som foi afectado? GL: Julgo que não. Houve mutações, mas isso está na nossa natureza. Nós somos verdadeiros ao nosso estilo. JF: As saídas de alguns elementos no primeiro ano em Nova Iorque alteraram um pouco as nossas perspectivas. Ficámos apenas nós os dois. Tínhamos a ideias para um álbum, mas não sabíamos com quem, nem como, nem quando. Estávamos no estrangeiro, com poucas pessoas e uma verba financeira reduzida. Chegou a ser desesperante. Mas não desistimos. Tínhamos de fazer alguma coisa.
«Some Of Us» é o reflexo de quê? JF: Como toda a música é um desabafo. Exprime o que passámos e do que sentíamos nessa altura. Quem gravou este disco fomos nós os dois...
Daí a presença de tantos músicos convidados no álbum? GL: Sim. Primeiro recrutámos algumas pessoas nos EUA para tocar connosco. À medida que o tempo foi passando vimos, no entanto, que elas não se encaixavam no projecto. Acabámos depois por voltar às raízes, recorrendo a amigos que já conhecíamos de Portugal, que estavam lá e que tínhamos conhecido aqui no Verão. Gravou-se o álbum. Começámos a digressão e agora voltaram connosco para Portugal. JF: A gravação do álbum foi complexa. Os artistas convidados fizeram coisas que serviram às músicas. Não nos limitámos à banda e tentámos usufruir do máximo que pudemos das participações dos convidados. Se precisarmos um dia mais tarde de algumas destas pessoas já sabemos que elas participaram connosco e que tal resultou.
Concordam que cada álbum é um momento do tempo? JF: Completamente. Reflecte as emoções, os pensamentos e a parte da vida que uma pessoa está a passar. Não somos o tipo de banda que faz uma coisa porque está na moda ou que só irá fazer o que está na moda. Mantemo-nos fiéis ao que fazemos desde o início. Por vezes, mais eléctricos. Noutras, mais eclécticos. Mas sempre a pensar que cada tema possui um sentimento diferente, conforme o que sentimos no momento.
Não colocam de lado a ideia de poderem vir a experimentar áreas musicais que até agora ainda não abordaram? GL: A experimentação faz parte de nós. Com o recurso, por exemplo, a elementos da música electrónica podemos fazer sair outras coisas de dentro de nós. Neste momento já estamos a utilizar instrumentos étnicos e percussões e alguns samplers. Não estamos presos a um tipo de som ou melodias. Somos uma banda que funciona com uma caixa aberta.
Já estão a trabalhar num novo disco... GL: É verdade. Acabámos de o escrever e agora estamos à espera da altura para o gravar. Esperamos que seja lançado antes do próximo Verão. Queremos que o álbum triunfe não apenas em Portugal ou em alguns circuitos dos EUA. O resto da Europoa é muito importante. Não estamos a pensar de forma cega no êxito, mas a experiência destes anos nos EUA diz-nos que é preciso mostrar o nosso trabalho ao vivo se queremos ser reconhecidos. Os Moonspell constituem um bom exemplo dessa atitude. Uma atitude profissional que tenha o apoio das editoras.
02-11-2001
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