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Thursday, 11 May 2006

Primitive Reason Entrevista - O peso de alguns de nós...
2.Nov.2001


Cotados actualmente como uma das bandas mais "internacionais" da nossa cena, os Primitive Reason
são hoje em dia uma certeza de qualidade e diversidade. Aproveitando a passagem do quarteto por
Portugal, ainda no âmbito da promoção de "Some of us...", o underportugal.com teve a oportunidade
de trocar impressões com o simpático baterista, Jorge Felizardo, acerca do futuro da banda.
Ficámos a saber que já há um álbum em carteira para este Inverno, e que a banda pensa em tocar
ainda mais ao vivo... ah! E, quem está a começar, fiquem atentos ás toneladas de dicas!


Como surge esta formação renovada dos Primitive Reason? Achas que é um novo fôlego para a banda?
Jorge Felizardo - Não, acho que não é o caso. Nos EUA fomos deparados com situações que tivemos
que resolver e depois de tentarmos vários membros, acabámos com o Abe e com o James.
Já os conhecíamos. São os amigos de longa data e encaixaram bem no seio da banda.


Mesmo o facto de a editora ser americana, foi uma opção muito bem ponderada...
JF - Foi uma opção mesmo nossa. Mesmo quando, no começo, assinámos pela União Lisboa, no contrato,
a nossa ideia era ver o disco lançado no estrangeiro. Nós sabemos que o nosso Portugal é um país
muito bonito, mas é muito limitado... Uma banda lança um disco ou dois e depois acaba. É tudo muito
bonito mas se uma pessoa não consegue viver do que trabalha, ás tantas não há dinheiro para meter
comida na mesa. A ideia de ir para os Estados Unidos não era ficar lá a viver dois anos.
Era gravarmos um disco, fazermos a tourné e voltarmos. E depois fazer outra tourné e regressar...
Mas como aconteceram algumas coisas tivemos que ficar lá mais tempo do que esperávamos.


Em "Some of us..." há uma mistura brutal de diferentes géneros musicais, no entanto tudo soa
muito coeso e coerente. Apesar disso não têm medo, de com estas mudanças, estarem a perder os
seguidores dos primeiros trabalhos?
JF - Quem gosta, gosta. E quem não gosta, paciência! Nós não somos uma banda de Metal, nem uma banda
de Reggae ou de Ska! Há pessoas que nos tentaram encaixar aí, quando o Ska estava na moda.
Éramos a banda do "Seven fingered friend", logo éramos uma banda de Ska. Agora o Nu-Metal está na
moda e passam mais músicas pesadas, encaixaram-nos logo aí. Do lado dos media hão de tentar sempre
pôr um rótulo ao que fazemos. O que fazemos é Primitive Reason. Podemos fazer um álbum só de Metal,
ou só de Bossa Nova! Fazemos aquilo que descobrimos nos nossos sentimentos. Todos os álbuns são
fotografias de tempos das nossas vidas. O primeiro álbum: uma data de gajos novos que estavam a
começar na música, com horizontes um bocado fora do habitual em relação ao que estava a acontecer.
E fizemos o que tínhamos de fazer. Não porque estava na moda. O Ska e o Reggae não estavam na moda.
O Metal estava mesmo na moda, mas se fores ver o disco só tinha uma música mesmo pesadona.
O segundo disco foi uma coisa mais Reggae, mais calma. Este terceiro reflecte a nossa experiência de
Nova Iorque até certo ponto. O caos e a calma.


E as vossa actuações ao vivo levam esse caos a um extremo...
JF - Posso mostrar-te vídeos de concertos de há cinco anos atrás e eram exactamente na mesma onda!
Ficamos surpreendidos quando nos dizem que é uma banda completamente diferente.
Agora não temos sopros ao vivo. E temos também menos melodia do que antes. Mas se fores ver o set,
é bastante balanceado: começa lento e depois torna-se mais calmo... Tipo uma onda na praia.
Para depois acabar outra vez forte e rebentar e acabar! : ) Uma pessoa não está sempre disposta
só a tocar música pesada. Ninguém é assim! Bem, há uns malucos que talvez sejam... : )


Ao fim ao cabo, a vossa música acaba por ser uma base de Rock com umas influências de Hip-Hop...
JF - Acho que somos quatro gajos a tocar música, cada um com várias influências, e mesmo ao nível
de gostos sociais, variamos bastante. E isso reflecte-se no som.

E achas que o tipo de som que os Primitive fazem, que está relativamente na moda, dará para tomar
de assalto as tabelas de vendas nos EUA?
JF - Vamos a ver! É como tudo: é preciso uma pessoa, estar há hora certa, no local certo e gostar
de uma música. Porque há uma data de bandas que estão aí há anos e nunca fizeram sucesso nenhum.
E há outras que aparecem do dia para a noite. Nós quando estamos a fazer as músicas, não estamos
a pensar em vender discos. Compomos e se gostarmos das músicas aproveitamos, senão guardamos na
gaveta para depois aproveitarmos partes.


No disco há imensas colaborações de renome, até mesmo na mestria do produtor (Marsten Bailey).
Há algo que queiras destacar dessas participações?
JF - O disco foi muito bom. Os sopros estão espectaculares, provenientes de bandas como New York
Ska Jazz Ensemble ou os Toasters. Tivemos mesmo aquilo a que se pode dizer a nata musical da região.
Mas por mero acaso. Estávamos num concerto e eles também, e amigo de amigo que conhecia a banda e
que tinha ouvido uma música... E decidiram participar naquela, "tenho uma coisa que talvez
encaixe aí!" A razão de não termos sopros agora é por não servirem na música e só os arranjamos se
acharmos que tocam bem. Por isso não os temos em palco, porque não dá para trazer os
americano$ para cá!


E como foi trabalhar com o Darin Pappas?
JF - Foi porreiro porque já o conhecia. Ele morava aqui ao pé de mim. Enviámos as letras que
já estavam prontas e dissemos que queríamos qualquer coisa naquela linha, e ele acertou
mesmo em cheio.


Há uma atitude muito urbana no vosso disco, mas o facto de se terem mudado para Nova Iorque
tenha contribuído para adensar isso...
JF - Sim, e talvez tenhamos crescido mais como músicos e amadurecido como indivíduos.


Mas contribuiu para o "enraivecimento" do vosso som?
JF - Tivemos essa raiva sempre presente. Uma pessoa vai crescendo e vai tendo mais experiência de vida...


E será que se vai desiludindo?
JF - Desiludindo não digo, porque uma pessoa só pode ter uma desilusão se criar uma ilusão!
E se tu acreditares, tiveres objectivos, e deres o teu máximo para chegares lá e se falhares...
Tem de haver uma razão. Isto aplica-se a tudo na vida: mais do que o teu melhor não podes dar.
Vamos gravar o novo disco já este Inverno, para o lançarmos já no ano que vem. E tocarmos cá,
lá e noutros pontos da Europa. A nossa ideia não era irmos para os EUA, mas sim divulgarmos a música
da banda o máximo possível. Desde que haja uma divulgação geral, estarei mais do que satisfeito.


É admirável o vosso espirito de luta...
JF - As coisas não aparecem do nada! Tens de experimentar ir a todas as editoras, senão organizar
tudo por conta própria, gravar também por tua conta. Nós conhecemos muitas bandas nos EUA que fazem
tournés por conta própria: gravam o disco, começam a tourné por clubes que abranjam uma área de três
horas de carro. E depois há que começar a alargar o círculo e fazer contactos. E tu tocando no meio,
acabas por conhecer as pessoas. Os portugueses pensam que lá fora é diferente, mas não é. Só na atitude:
as pessoas lá mexem-se mais.


O que é que pensaste quando ouviste falar dos ataques em Nova Iorque?
JF - Para mim foi um choque. Tinha a namorada lá. Ela vivia bastante perto de lá. Estive lá há cerca
de duas semanas e é esquisito... Preferia não falar de política.


Como foi a digressão com os Misfits e Fishbone?
JF - Foi óptima. Estamos a ver se fazemos outra por lá. Tocámos todos os dias durante dois meses e
meio, mas ás vezes só para cinco ou dez pessoas, dependendo dos sítios.


Quais foram os problemas que tiveram com a distribuição do disco por cá?
JF - Desde que viemos apresentar o disco em Janeiro, que as coisas correram mal, porque a divulgação
do disco tem sido bastante lenta. Mesmo com os muitos concertos que temos dado, quase sempre cheios.
Não sei o que se passa...


Têm novidades dos 3 and a Quarter?(banda que apadrinham)
JF - Estão bem! Gravaram agora um disco que vai sair no ano que vem.


Como é que correu o concerto de terça-feira, em Viseu?
JF - Estava bastante doente, por isso, para mim, foi uma grande merda! De resto foi porreiro, íntimo! : )


Sei que vão apresentar material novo no concerto de hoje. Que projectos para o futuro de Primitive Reason?
JF - Estamos a tentar fazer o mesmo de há quase dez anos: divulgar a banda ao máximo para tentar uma
tourné europeia e outra nos EUA. Chegar a um patamar um pouco mais alto.


No nosso site, underportugal.com, estamos a organizar o primeiro concurso de música moderna online
para novas bandas. Gostava que lhes desses umas dicas...
JF - Tens a opção de entrar na roda ou ficar a vê-la girar. Nunca desistam por mais que seja difícil.
Continuar a tentar e esforçares-te. E planear as coisas o mais objectivo possível, para os três meses
a seguir. Organizar concertos. Tocar muito! E tentar ver que o mundo não é só Portugal. A Europa é já aqui
ao lado! Madrid fica a seis horas de carro. Tu podes organizar um concerto lá e em dois dias conhecer os
sítios onde podes tocar. Voltar lá e tocar noutros sítios. Contactar bandas estrangeiras. Levantar mesmo o cú!

José Branco

 

 

 
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