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Diario Digital - Year: 2001 (Portuguese) Print E-mail
Thursday, 11 May 2006

02-11-2001

Entrevista aos Primitive Reason: «Continuamos a ser uma banda portuguesa»
Filipe Rodrigues da Silva
Em 1996 os Primitive Reason eram a maior esperança do cenário musical
português. Os temas de «Alternative Prison» tornaram-se em hinos e tinham
presença assegurada no airplay, fruto da explosiva mistura de rock, ska, dub
e hardcore. A passagem pelo primeiro Vilar de Mouros da era moderna
consagrou-os a nível interno. Mas os Primitive tinham planos mais arrojados.
Com «Tips & Shortcuts» ainda fresco nas lojas e a bater recordes de vendas
(em duas semanas vendeu mais do que a totalidade do seu antecessor), a banda
partiu para os Estados Unidos e fez de Nova Iorque o seu quartel-general.
Tocaram com êxito nas muitas salas do circuito alternativo norte-americano e
transformaram-se numa das estrelas do Napster. Entretanto, a formação sofreu
muitas alterações e chegou-se a falar no fim da banda. Este ano, «Some Of
Us» rompeu o silêncio em terras lusitanas. Segundo Guillermo de Liera (GL) e
Jorge Felizardo (JF), os Primitive estão de volta, de boa saúde e dispostos
a não decepcionar os fãs.


Em 1996 tiveram um êxito talvez não esperado. Depois editaram «Tips &
Shortcuts», o qual foi também um grande êxito. De forma inesperada, de
repente, desapareceram. Porquê?
GL: Se soubéssemos como as coisas iriam correr teríamos feito de maneira
diferente. Mas já nos tínhamos comprometido e fomos para os Estados Unidos
antes desse sucesso inesperado. Foi uma pena, de certa forma.

JF: Acho que as pessoas sentiram essencialmente falta dos concertos. De
ouvirem falar de nós. Foi uma sequência de acontecimentos, a começar na
relação com a editora e a acabar na vontade de querermos experimentar coisas
novas. O processo arrastou-se ao longo de um ano, logo a seguir a
«Alternative Prison», e pensámos muito no que iríamos fazer. Gravámos o
segundo álbum, mas a decisão de nos mudarmos para Nova Iorque já estava
tomada, Não foi, por isso, repentina ou impulsiva. Mas concordo que
lamentamos não ter podido presenciar o que sucedeu a «Tips & Shortcuts».

Como correu a aventura americana?

JF: Correu muito bem. Tocámos em muitos sítios. Conhecemos muitos músicos e
aprendemos imenso. Tínhamos o objectivo de apresentar a nossa música ao
mercado norte-americano e julgo que o conseguimos. Estamos de volta a
Portugal para desenvolver o nosso trabalho. Constitui mais uma etapa da
banda. Se regressarmos aos EUA será apenas pontualmente para efectuar
concertos o gravar.

GL: Começou tudo a partir de Nova Iorque. Tocámos em todos os bares e clubes
da cidade que havia para tocar. Fizemos ainda uma digressão de duas semanas
na Costa Leste e depois passámos quase dois meses na estrada. Foi muito bom
sentir que estávamos a ser bem recebidos pelo público e os media, mesmo que
as vendas de discos não tenham sido astronómicas. Quando há um primeiro
disco é difícil convencer. Mas tudo o que sucedeu compensou esse facto.

E agora o regresso a Portugal. O lançamento deste álbum não terá ocorrido na
melhor altura...

JF: Há coisas que, enquanto banda, não controlámos totalmente. O facto de
termos uma editora em Portugal e outra nos EUA gera alguma confusão, mas
julgo que tudo vai passar a correr da melhor maneira. É certo que «Some Of
Us» saiu primeiro nos EUA e demorou muitos meses até ser editado em
Portugal. A sua edição na parte final do Verão fez-nos perder os principais
festivais e muitos concertos, mas possuímos agora todas as condições para
mostrar que a banda está viva, forte e pronta para tudo. Somos uma banda
portuguesa e queremos triunfar no nosso país.

Com tantas alterações na vossa formação o vosso som foi afectado?

GL: Julgo que não. Houve mutações, mas isso está na nossa natureza. Nós
somos verdadeiros ao nosso estilo.

JF: As saídas de alguns elementos no primeiro ano em Nova Iorque alteraram
um pouco as nossas perspectivas. Ficámos apenas nós os dois. Tínhamos a
ideias para um álbum, mas não sabíamos com quem, nem como, nem quando.
Estávamos no estrangeiro, com poucas pessoas e uma verba financeira
reduzida. Chegou a ser desesperante. Mas não desistimos. Tínhamos de fazer
alguma coisa.

«Some Of Us» é o reflexo de quê?

JF: Como toda a música é um desabafo. Exprime o que passámos e do que
sentíamos nessa altura. Quem gravou este disco fomos nós os dois...

Daí a presença de tantos músicos convidados no álbum?

GL: Sim. Primeiro recrutámos algumas pessoas nos EUA para tocar connosco. À
medida que o tempo foi passando vimos, no entanto, que elas não se
encaixavam no projecto. Acabámos depois por voltar às raízes, recorrendo a
amigos que já conhecíamos de Portugal, que estavam lá e que tínhamos
conhecido aqui no Verão. Gravou-se o álbum. Começámos a digressão e agora
voltaram connosco para Portugal.

JF: A gravação do álbum foi complexa. Os artistas convidados fizeram coisas
que serviram às músicas. Não nos limitámos à banda e tentámos usufruir do
máximo que pudemos das participações dos convidados. Se precisarmos um dia
mais tarde de algumas destas pessoas já sabemos que elas participaram
connosco e que tal resultou.

Concordam que cada álbum é um momento do tempo?

JF: Completamente. Reflecte as emoções, os pensamentos e a parte da vida que
uma pessoa está a passar. Não somos o tipo de banda que faz uma coisa porque
está na moda ou que só irá fazer o que está na moda. Mantemo-nos fiéis ao
que fazemos desde o início. Por vezes, mais eléctricos. Noutras, mais
eclécticos. Mas sempre a pensar que cada tema possui um sentimento
diferente, conforme o que sentimos no momento.

Não colocam de lado a ideia de poderem vir a experimentar áreas musicais que
até agora ainda não abordaram?

GL: A experimentação faz parte de nós. Com o recurso, por exemplo, a
elementos da música electrónica podemos fazer sair outras coisas de dentro
de nós. Neste momento já estamos a utilizar instrumentos étnicos e
percussões e alguns samplers. Não estamos presos a um tipo de som ou
melodias. Somos uma banda que funciona com uma caixa aberta.

Já estão a trabalhar num novo disco...

GL: É verdade. Acabámos de o escrever e agora estamos à espera da altura
para o gravar. Esperamos que seja lançado antes do próximo Verão. Queremos
que o álbum triunfe não apenas em Portugal ou em alguns circuitos dos EUA. O
resto da Europoa é muito importante. Não estamos a pensar de forma cega no
êxito, mas a experiência destes anos nos EUA diz-nos que é preciso mostrar o
nosso trabalho ao vivo se queremos ser reconhecidos. Os Moonspell constituem
um bom exemplo dessa atitude. Uma atitude profissional que tenha o apoio das
editoras.

in diariodigital.pt (thanks to: Andre Pintado)

 
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