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Bodyspace.net - Year: 2005 (Portuguese) | Bodyspace.net - Year: 2005 (Portuguese) |
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| Thursday, 11 May 2006 | |
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Primitive Reason 10_06_2005 “Meifumado” corresponde à designação Budista para inferno, o caminho a percorrer pelos demónios e almas amaldiçoadas. Desde sempre que os Primitive Reason levam o seu espectro musical a percorrer os géneros musicais de forma intuitiva mais do que fixada. Procuram o escape ao sufoco urbano e à imutabilidade da matéria, como Samurais que desconhecem um Mestre mas não esquecem o Código de Honra. Surgido numa clareira de criatividade situada a meia altura da Quimera, Pictures in the Wall representa um peculiar período de meditação, em que o personagem nómada aproveita um posicionamento privilegiado para planear as próximas coordenadas. Guillermo de Llera fala-nos de tempos de consolidação. Bodyspace: Pictures in the Wall será, dos vossos trabalhos, aquele que mais se aproxima daquilo que se costuma rotular de álbum conceptual. Concordas? Qual a sua base conceptual? Guillermo: Enquanto parte de um conceito, o Pictures in the Wall procura, através da música, projectar imagens que sirvam de complemento ao livro. Bodyspace: Foi o disco que partiu do livro ou o inverso? Guillermo: A concepção de ambos aconteceu de forma simultânea. A escrita conduzia a algumas pistas musicais e, por sua vez, a música inspirava-me a algumas passagens do livro. Bodyspace: Pode-se então dizer que foi um processo paralelo? Guillermo: Sim, exactamente. Bodyspace: Já ouvi o álbum enquanto lia a história, e notei um saudável encaixe entre ambos. Foste tu que escreveste, certo? Guillermo: (Risos.) Sim, sob pseudónimo. Bodyspace: Com essa máscara procuraste também tu assumir o papel de um personagem? Guillermo: Sim. Bodyspace: Que autores te influenciaram? Guillermo: Foram tantos... Jules Verne, Cervantes, Carlos Castañeda, Herman Hesse... Bodyspace: A carga conceptual costuma estar associada ao rock progressivo. Encontras afinidades junto desse género? Guillermo: Sim, se te estiveres a referir ao rock progressivo como género favorável à música enquanto objecto que evolui. Bodyspace: Até onde pode ir o conceito Primitive? Acreditas na possibilidade de uma banda-desenhada ou até mesmo de um filme? Guillermo: Sim, dispomos de uma liberdade que nos permite expandir a nossa criatividade a diversos quadrantes. A condição underground abre-nos as portas para, se for essa a vontade, transpor o conceito para a banda-desenhada, arte, compor a banda-sonora de um filme e por aí fora. Bodyspace: Concordas que Pictures in the Wall se aproxima de Some Of Us por também ele ser produto de um esforço conjunto? Uma coisa muito comunitária. Guillermo: Sim, de certa forma acredito que todos os nossos discos são resultado de um esforço conjunto. Este acabou por ser concebido numa base mais familiar. Bodyspace: Pictures in the Wall é impressionante a nível a vocal. Sentes que o teu flow e polivalência têm vindo a progredir? Guillermo: Sim. De disco para disco tento evoluir e expandir as fronteiras dos meus limites vocais. É esse mesmo o meu objectivo como vocalista; o de crescer e mostrar uma evolução constante. Bodyspace: Desde o vosso início que a banda se foi metamorfoseando até sobrares apenas tu da formação original. Existem mudanças significativas na essência da banda? Guillermo: Ainda que tenham sido várias as mudanças, creio que a raiz e essência se manteve. Até certa altura, eu e o Jorge Felizardo assegurámos a sua manutenção e os irmãos Beja vieram a reforçar isso. Toda a gente, de uma forma ou de outra, contribui e deixou a sua marca na essência que ainda é perceptível. Os tempos agora são de consolidação em vez de mutação. Bodyspace: Encontro traços comuns entre Alternative Prison e Pictures in the Wall. Guillermo: Acredito que sim. A filosofia de arranjos arrojados é a mesma, ainda que tenham passado dez anos desde o Alternative Prison. Tínhamos decidido dar a entender esteticamente o fechar de um ciclo musical, e uma nova partida. Bodyspace: Há algum instrumento que não se atrevam a inserir no vosso universo? Guillermo: (Pensativo.) Talvez sintetizadores, mas nunca se sabe. A guitarra portuguesa poderia à partida ser uma carta fora do baralho e encontrou lugar no The Firescroll. A tendência é inserir cada vez mais instrumentos orgânicos. Bodyspace: Quão preciosa foi a importância do Blitz e Fnac na promoção do novo disco? Sentem-se privilegiados com os apoios? Guillermo: A importância da Fnac prendeu-se essencialmente à oportunidade de lançar o disco sem a intervenção de intermediários. Da fábrica para a loja. Era nossa intenção facultar o disco por um preço mais reduzido do que os 18 euros que estamos habituados a desembolsar. Bem sei que muita gente tem por hábito “sacar” discos da Internet, mas acredito que muitos também procurem na compra do disco aquele contacto com o objecto, que, no caso do Pictures in the Wall é ainda mais fulcral devido à inclusão do livro. O nosso lançamento através do Blitz permitiu-nos lançar um disco por menos de 13 Euros, o que para nós também significou mandar uma mensagem para o público e industria. Uns estão-se a acostumar demasiado a não pagar por nenhum disco, o que não permite aos músicos fazer a vida a partir da música, e outros estão a encarecer os produtos de tal maneira que quase provoca a reacção dos primeiros. Porque é que nos Estados Unidos se compra um disco por menos de 15 Euros e aqui pagamos tanto? Bodyspace: No showcase da Fnac Cascais havia uma plateia heterogénea, formada por jovens da idade de boa parte do público presente nos vossos primeiros concertos e por pessoas que têm acompanhado o vosso crescimento desde o início, nomeadamente desde os concertos atrás referidos. Isto causa-vos algum tipo de sensação? Sentem-se os Xutos & Pontapés da nova geração pelo público diverso que a vossa música abrange? Guillermo: Sim, uma espécie de Xutos & Pontapés inseridos num plano mais underground. Sinto-me lisonjeado por saber que há quem nos acompanhe desde o início, tal como me agrada que uma nova geração acorra aos nossos concertos. Acredito que isso se deve essencialmente ao facto de muitos meios estudantis - como liceus e universidades - serem tão favoráveis e receptivos à nossa instalação. Bodyspace: Como andam as coisas por Espanha? O facto de algumas músicas serem cantadas em espanhol ajuda? Guillermo: Combinar o espanhol com inglês favorece o ecletismo. Cada língua tem a sua sonoridade e ritmo, e incorporar o espanhol foi uma bênção no sentido musical. Claro que cantar em espanhol ajuda a introduzir o nosso som na Espanha, mas o tempo dirá se haverá uma aceitação tão grande lá como cá. Bodyspace: Acreditas que, com a devida rodagem, “El Caballero de la Triste Figura” poderia atingir a exposição um dia pertencente a “Seven Fingered Friend”? Encararias isso como um tipo de maldição? Guillermo: O “Seven Fingered Friend” surgiu na altura certa. Veio ao encontro de um ska em ascensão. Não me parece que isso venha a acontecer no caso do “Caballero”, que está à margem da moda. Não encaro o “Seven Fingered Friend” como uma maldição. Afinal, foi a música que colocou o nosso nome no mapa e aquela que atraiu muita gente até nós. Entendo o seu sucesso como uma demonstração de reconhecimento. Bodyspace: Pictures in the Wall aborda de perto a sensação da viagem mental. Actualmente, que sonoridades te conduzem ao transcendental? Guillermo: Música clássica indiana e cânticos nativos ou tibetanos. Qualquer música dos primeiros povos. Miguel Arsénio (bodyspace.net) |
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