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Divergencias.com - Year: 2005 (Portuguese) | Divergencias.com - Year: 2005 (Portuguese) |
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| Thursday, 11 May 2006 | |
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Primitive Reason: Experiências pessoais Quase dez anos depois de “Alternative Prison”, “Pictures in the Wall” surge como a metáfora perfeita de todo o universo dos Primitive Reason. Segundo eles é preciso sentir, sonhar e partilhar as experiências vividas individualmente. Porque o importante é estar satisfeito com a vida. Divergências: De que é que se fala em “Pictures in the Wall”? Guillermo: É mais fácil de perceber lendo o livro. É uma história sobre uma pessoa que está paralisada e não consegue comunicar com o mundo exterior e que se refugia no seu interior para encontrar uma escapatória à sua prisão física. Essa é uma metáfora sobre tudo o que os Primitive Reason fazem. Os Primitive têm uma vertente muito política apesar de eu não perceber muito de política. O que importa é que eu vivo os resultados. Daí surge a ideia da independência pessoal e de seres tu próprio e pensares por ti próprio. Este é um tema recorrente não só em “Pictures in the Wall” mas em todos os outros discos. O que importa é perceber os teus sentimentos e emoções quebrando a muralha física. Compreender o que o teu coração te diz. Divergências: Neste trabalho o livro é inseparável do disco? Guillermo: É, mas foi escrito de modo a dar liberdade às pessoas porque eu acho que as pessoas não são obrigadas a ler. Mas já que está lá podiam lê-lo! São 19 páginas, não é muito pesado! A mensagem já está dentro das músicas. O livro é um complemento que se pode aceitar ou não, se a pessoa estiver interessada. Divergências: “Pictures in the Wall” juntamente com “The Firescroll” acabam por construir um universo muito próprio para os Primitive Reason, falando de sonhos, viagens e espiritualidade. Concordas? Guillermo: É verdade. Tem a ver com a experiência e com o tempo. No passado eu não me sentia muito à vontade em falar de temas muito espirituais. Penso que isso é uma coisa muito pessoal. O universo metafísico influencia grande parte da experiência do dia a dia e nós tentamos falar disso de modo a que o público perceba que há alguém que entende a sua procura pessoal. O facto de não estar satisfeito com a vida, com a rotina, com o trabalho das nove às cinco, etc. Mas, imagina um palco cheio de luz com os músicos a tocar, o ambiente...parece magia! E no entanto aquelas pessoas são seres humanos que têm as mesmas experiências e dúvidas sobre a vida. Identificas-te com elas e libertas-te. Divergências: No entanto, enquanto disco, “Pictures in the Wall” é diferente de “The Firescroll”. É menos pesado, tem mais interlúdios, existe mais voz, mais temas em espanhol... Guillermo: As bandas passam sempre por diferentes fases. Quando se omite algo não quer dizer que esteja a desaparecer. Por exemplo, já não temos dub há algum tempo, o que não quer dizer que não volte a aparecer no próximo disco. Os Primitive Reason não têm regras e fazemos as coisas pensando sempre naquilo que queremos transmitir. Abel: Essa diferença é a evolução que houve de “The Firescroll” para “Pictures in the Wall”. Decidimos sermos nós a fazer o nosso som. O facto de ser pesado ou não, tem a ver com a produção. Se as guitarras estão à frente, vai soar muito mais pesado. Divergências: Os álbuns anteriores foram produzidos por Marsten Bailey. No novo álbum, sentiram a necessidade de serem vocês a produzi-lo? Guillermo: O Marsten Bailey foi um grande professor para esta banda. No início...e ainda agora, temos a fama, de maneira errada, de sermos selvagens e indomáveis. Essa fama acompanhou a experiência da banda além fronteiras. De certa maneira nós necessitávamos de um produtor para pôr ordem na casa e fomos trabalhando com ele com muito respeito e amor porque somos grandes amigos. Neste disco decidimos que estávamos preparados para nos aventurarmos na produção, o que é um risco tremendo! Abel: É como o fechar de um ciclo. Em termos de produção e de arranjos, este disco é muito parecido com o “Alternative Prison”. Tivemos a liberdade de entrar em estúdio com os nossos arranjos. O som que ouves em palco é o que ouves no disco. É um disco muito mais cru. Divergências: O Jorge Felizardo [ex-baterista] era um dos fundadores dos Primitive Reason. Como lidaram com a sua saída da banda? Guillermo: Eu conheço o Jorge desde os nove anos. Andámos juntos na escola. Ele é mais do que uma pessoa com quem eu toquei. É como se fosse um irmão. Já passaram muitas pessoas pela banda, mas o Jorge é aquela com quem eu tenho mais experiência pessoal. No caso dele, chegou uma altura em que ele não estava preparado para dispensar o tempo suficiente para atingir certos objectivos propostos pela banda. O Jorge não conseguia viver só com os lucros que tirava da música. Se ele não estava bem, a banda não estava bem. Falámos e ele decidiu sair com muita pena nossa. Agora sou o único fundador sobrevivente mas é com muito gosto que toco com estas pessoas. Divergências: Os Primitive Reason encontram-se intimamente ligados ao projecto Kaminari Sama. Quais são as bases da sua filosofia e o seu significado? Guillermo: O significado de Kaminari Sama tem a ver com o Deus do Trovão na mitologia Japonesa. É um colectivo de pessoas que tem vários tipos de projectos. A única regra é ter música original. Imagina que o Frank Zappa andava por aí, tinha um projecto todo maluco e não era conhecido. Ele tinha o passe livre para entrar no Kaminari Sama. As pessoas do colectivo adoptam pseudónimos no seu trabalho para não atrair a atenção toda para uma pessoa. Se um gajo é músico e escritor ao mesmo tempo, é muito fácil isso tornar-se um utensílio dos media mais comerciais para engrandecer uma pessoa ao ponto de ela não se sentir confortável e perder a inspiração. Assim todos podemos ter outros nomes e fazer outras coisas sem haver a pressão de nos catalogarem. Abel: Imagina que eu e o Guillermo tínhamos um projecto com dois gajos que ninguém conhece. O projecto era conhecido pelo projecto dos dois gajos de Primitive, acabando por prejudicar as outras pessoas. Guillermo: De certo modo é frustrante ser um bom músico e estares numa banda de um gajo conhecido e toda a atenção recai nessa pessoa. Olha a banda do X... Divergências: Também fazes parte dos Nagual. Não tens esse problema? Guillermo: Às vezes. Eu nos Primitive tenho uma posição. Nos Nagual tenho outra completamente diferente. Sou apenas o baixista e assumo essa posição. É chato irem falar comigo quando o cérebro da banda é o Ricky [vocalista e guitarrista]. Divergências: O que é que vocês andam a ouvir? Guillermo: Rahib Abou Khalil. É um libanês que toca alaúde, foi viver para Nova Iorque e mistura música árabe com jazz. Ali Farka Toure que é um gajo que veio do Mali e faz blues. Depois ouvimos o “Master of Puppets” de Metallica, claro! Abel: O Bob Marley influenciou grande parte da nossa vida. Agora tens bandas como System of a Down, Tool e A Perfect Circle...Tricky, Massive Attack. Divergências: E bandas portuguesas? Abel: Acho que Fadomorse e Factor Activo são dois projectos interessantes porque estão a tentar fazer algo diferente. Guillermo: Terrakota! É uma banda que está muito próxima de nós e da maneira como transmitimos as nossas ideias. Existem bandas portuguesas muito boas que não deverão ter a mínima possibilidade de terem sucesso porque o mercado não está para aí virado. Nós tivemos sorte porque o “Seven Fingered Friend” levantou o nome da banda com um sucesso gigantesco... Divergências: Por falar em “Seven Fingered Friend”, quando é que voltam a tocá-la ao vivo? Guillermo: Algum dia! Isso tem de ser surpresa pá! (risos) Nós somos putos casmurros. Se nos dizes que temos de tocar, nós não tocamos! (risos) Abel: O pessoal já está tão habituado a nós não tocarmos o “Seven Fingered Friend”. Quando a tocarmos, vai ser a partir! (risos) Texto: Hugo Amaral @ www.divergencias.com |
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